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ARBITRARIEDADE VS. SAGACIDADE!

Numa última noite do ano, por volta de 1962 ou 1963, Baracho tomou uns "frisantes" num bar no centro da cidade em companhia de um cabo de nome Geraldo, ao sair, chegou a uma esquina de uma pequena praça, calçada do luxuoso bar denominado "Biluca", onde o dono de nome Gualberto estava queimando uns papelões numa "boca de lobo", Gualberto não gostava de Baracho desde os tempos da escola primária. Tão logo Baracho se aproximou com Geraldo ele gritou:

"Cachorro do Governo, macaco amarrado pela cintura, Meganha!"

Sem pensar melhor, Baracho chutou a fogueira e um dos papelões começou a queimar a camisa do comerciante, que correu para o bar usando a única porta que estava aberta. O outro cabo saiu correndo para a esquina oposta ficando a pracinha de entremeio e gritou:

Ele foi apanhar uma arma de fogo!

Sem ter tempo para sair da frente do bar, Baracho se aproximou da porta entreaberta e viu que Gualberto estava telefonando para a policia chamando a rádio patrulha, momento em que saiu do local e foi-se embora para a sua casa, sendo acordado ao amanhecer do dia por ter sido chamado ao quartel, onde ficou detido.

Foi informado que o comando geral da policia militar estava interessado na apuração dos fatos e na punição de Baracho, por ser amigo da família de Gualberto. Ao ser chamado para explicar o fato, ficou sabendo que a queixa fora dada faltando com a verdade e mudando os fatos, com Gualberto dizendo, dentre outras coisas:

"... Fui agredido por Baracho e um outro cabo por volta de 03h00min da madrugada, com o meu bar cheio de senhoras casadas com os seus esposos... tinha acabado de varrer o estabelecimento e coloquei fogo no lixo na calçada... eles estavam embriagados".

Alguém tinha orientado, maldosamente, a Gualberto dizendo que os policiais não podiam transitar fardados após as 22h00min horas e, naquele dia, além de 00h00min hora.

Baracho se defendeu informando que estava sozinho (a falta cometida por mais de um é agravante e ninguém é obrigado a fazer prova contra si mesmo). Provou que o horário da queixa era discordante com o horário da chamada da policia por Gualberto, a qual fora registrada numa planilha de odômetro da rádio patrulha. Ele não podia provar a embriaguez por falta do exame de teor alcoólico, ou a observação de algum superior de Baracho.

Com a insistência do comando na capital, vários oficiais tentaram forçar Baracho, em todos os momentos possíveis, a dizer o nome de seu colega no evento, mas, debalde, ele nunca disse o nome pretendido por eles.

Numa tarde, estando Baracho na cantina com vários colegas, um tenente chegou e foi logo dizendo: "Que vergonha Baracho! Gualberto meteu o revólver em vocês e os dois saíram correndo dele".

Naquele exato momento, ouviu-se uma voz forte no fundo da cantina:

"Policial que foi meu recruta não corre de revólver empunhado por paisano, ou você mesmo vai tomar o revólver ou eu vou mandar minha escola de recrutas até a "Biluca" desarmar o dono e quem lá for encontrado.".

Ao ouvir tais palavras, o oficial virou-se, observando que eram ditas pelo então capitão Ribaldo, seu superior, e não teve outra condição do que desmentir tudo sob a alegação de que assim agira para pressionar o cabo Baracho visando conseguir o nome do outro envolvido.

Naquele dia, a paciência de Baracho esgotou-se e ele pediu para falar com o comandante, mandando dizer a ele que contaria o nome do seu colega. Foi prontamente atendido e introduzido, a sós, no gabinete do comandante.

Após as continências, foi logo dizendo ao comandante:

Se continuar as pressões vou declarar e assinar que o meu companheiro era o soldado Délcio.

O comandante vociferou: isto é impossível! Délcio é meu sobrinho e naquela noite estava em minha casa.

Baracho o respondeu:

"Eu sei! Contudo, não tenha o senhor nenhuma dúvida, a primeira pergunta de qualquer oficial vou dizer que é o Délcio."

Procurando obtemperar, o comandante lhe disse:

Você sabe que sou amigo do seu pai, porém, quaisquer queixas que vier a este quartel envolvendo o nome de um cabo, vão mandar prendê-lo nem que saiba que você é inocente e estar dormindo em sua residência!

Tendo Baracho respondido: isto é ruim porque, quando eu estiver de guarda em sua casa vigiando o senhor e a sua família e chegar alguém mal intencionado, vou sair correndo deixando-o desprotegido e, quanto ao senhor ser amigo do meu pai, é muito fácil, pois ele é "cabo eleitoral de Juscelino Kubstichek!".

Naquele momento, o comandante deu um forte grito e a sala encheu-se de policiais de várias patentes e graduações, ao que, o comandante, dirigindo-se ao Baracho, ordenou: Repita o que você disse a meu respeito.

Cinicamente, como a situação o exigia, Baracho limitou-se a asseverar:

"Que está acontecendo meu comandante? Eu nunca falaria nada contra o senhor, considero-o o melhor comandante do mundo, além disso, é muito meu amigo do meu pai."

O comandante mandou Baracho sair do gabinete como se faz com um cachorro... Aos gritos! Todavia, daquele dia em diante, ficou livre dos assédios e o inquérito foi arquivado sem provas, entretanto com a observação:

"Apesar de não ter ficado nada provado, Baracho não é flor que se cheire!", dizeres esses que foram tornados sem efeito pelo comandante que sucedera o tio de Délcio.

Num novo comando, Baracho acabou sendo monitor de recrutas, cargo só auferido por sargentos, porém, galgado pela sua capacidade burocrática.

(aa.) S.A.BARACHO.
conanbaracho@uol.com.br
Sebastião Antônio Baracho

Coronel Fabriciano
MG

De 71 a 80 anos
30/09/2007 envie um e-mail para o autor

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